Se fosse pra aguardar telefonemas, sábio eu seria por não te esperar. Hoje, amanhã e depois de amanhã, te liguei. Umas trocentas e tantas vezes, eu diria. Murmurei, reclamei pra amigos, disse o quanto odiava esperar, mas todos sabem que eu tenho paciência quando se trata de amores instantâneos.
O telefone tocou.
"Não identificado", "restrito", "desconhecido". Custa rubricar de baixo o seu cartão postal e colocar com letra de forma a inicial do sobrenome? Não tenho graduação em adivinho ou faz de conta. Até pensei em ser uma bina telefônica certa vez.
Conversávamos.
Eu te dizia sobre academia, detalhava minha cidade, rotinas. Você falava em outra língua, me ensinava sobre preguiça, sobre libras, vinhos, viagens e coisas cognitivas. Eu continuava deitado pensando na imensidão de cada detalhe e falava o quanto a minha cidade era pequena, miúda ou o quanto minha vida parecia pouco desnuda comparada com a sua.
Continuávamos a trocar olhares, você persistia em fazer sinais, eu ficava à adivinhar. Eram dois gatos, uma toca, cavanhaque, frio, um amigo. Já perdi de vista quantos penetras estavam envolvidos na nossa chamada.
Você sorrira, eu nem prestava atenção, fingia. Nem perguntara sua idade. Estava empolgado falando sobre praças, orla, pontes, comida, comida e mais comida. Você vasculhava informações no tal de Google. Dizia que queria beber guaraná, açaí, buriti, tambaqui e eu sou pensava em te ter aqui. Mentira, só quero os meus dois litros de vinho e os outros 60 quilos de presentes que tu há de trazer pra mim. Puro interesse. Afinal, Quem precisa de amor?
Te liguei novamente.
Você dizia: "saudade". Eu dizia: "mentira". Você me cobrava um interprete, eu te dizia que não sabia falar a tua língua, não sabia coisas sobre aquisição nem utopia.Descrevia os meus traços, dizia que era índio, cafuçu, branco, pardo, preto, Brasileiro. Uma mistura. Uma putaria de miscigenação. Você sorria de novo. E eu tentava roubar em cada canto do losango, mais um sorriso.É, faltam poucos dias. Você vai conhecer o calor tropical, amazônia, ventania, furacões de informações. Não desliga ainda, não cochila, apenas minimiza. Sei que já se passaram mais de duas horas e trinta minutos de conversação. Abre o olho, toma mais uma xícara de café, eu deixo. Espanta o sono, sei que tu estás tentando cortar a cafeína, mas aguenta mais um pouquinho, são só cinco dias.
Desliguei.
Retornei ao vício computacional. Cinquenta e oito segundos depois havia um coração a minha espera. Respondi:
Seja bem vindo, diga bom dia e conheça por três dias às culturas por de trás dos meus contornos. Beije, abrace, sinta e faça do meu pequeno espaço o teu. Esqueça, os "Daí'', "Né" e outros tantos vícios de linguagem. Acho que são só esses os lembretes. Ah, mais uma coisa, havia dito que iria dormir, mas é tarde demais pra pedir desculpa. Então, preferi te escrever.