domingo, 22 de julho de 2012

Ma Mère





"Pergunto-me se o incondicional faz parte do meu criar desde pequeno. Questiono-me se o educar, alimentar e sustentar, seriam capazes de suprir a ausência do gostar".



Anos a dentro, histórias atrás, nós somos o meio. O meio que nasceu do começo, um peso pra vida toda. Assim, sem silenciar nenhum fato que fuja  a memória, nós filhos somos apenas consequências de passados inacabados.

Desde pequeno, sinto conforto de um colo idoso, um anjo de asas cansadas, a herança de um sonho bom. Um elo do afeto que caiu no esquecimento, mas que nunca deixou a desejar por medo de amar. Um anjo que aos céu está.

Os dedos foram crescendo, as roupas desabotoando e o menino tempo a tempo foi desabrochando. Ele aprendeu a lidar, construir e sequestrar o engatinhar. Aprendeu a garfo e facas, apoiar sob os pulsos toda força imposta pela a mesa da vida. Aprendeu a dedilhar todas as ladainhas, todas as mágoas e ideologias.

O menino amadureceu. Deixou desencanto tomar conta, aprendeu a administrar as fissuras maternais e descobriu que estaria sozinho mesmo que não o estivesse. Percebeu que longe dos conflitos, próximo ao encosto da solidão, poderia encontrar empoeirado o cuidado de um papel usado, as histórias de cafés passados e sempre acompanhado de velhos amigos, para um bom carteado.




segunda-feira, 16 de julho de 2012

Acolchoado





Apronto minha cama pela a tua espera, desdobro, redobro e sufoco de tanto arrumar. Espero sentado, pensativo e bem trajado, juntamente a angustia que passa por dentro.

Apresso-me no desespero de olhar, vezes após vezes, o meu portar. Provando meticulosamente o jeito de auto-mutilar o meu espelhar.

Acolá avisto rapidamente pequeno polegar, entusiasmado só pelo andar, que sobre sol e vento a passar, começa a me acompanhar.

Portão a dentro, fechadura lacrada, estamos eu e tu nesta nova morada. 

Desajuizados, abraçados e esquentados com cobertas que exalam a paz. Assim, largado e confortado, nos braços do teu abraço, estou.

Ah, então eu torno a imaginar, o que há de passar frente aos olhos deste alguém que está a me debruçar.

Só posso pensar que meu único direito seja o teu olhar, que  agora meio desacordado torna a nos analisar sem julgamentos, sem hesitar.


quarta-feira, 11 de julho de 2012

Calcanhar.



Na ponta do pé sempre sustentei a minha força, carreguei sobre os ombros e calcanhar no chão, a realidade que me aflorava.

O sangue circulava, junto ao tendão que ligava e fincava carne-corpo. Num vise-versa, num trás e volta, que por mais corroído que estivesse,  permanecia suspenso defronte qualquer dificuldade.

Ossos cravados espírito a dentro, faziam-me viajar têmporas a fora sem saber a direção. 

Vivia sem pé nem mão, numa doce estrada de chão. Vivia a vida de um cidadão, que sem sobrado e nem trocado, guardava o dinheiro do pão.

Lutador de determinação, continuei com as solas dos pés ao chão. E agora de paletó e gravata gomada, deixou a vida de peão, lembrando-a como apenas uma  recordação.

Resultados da pe

domingo, 1 de julho de 2012

Mulata a Beira Mar.



Carol penteia os seu cachos negros mulato, 
junto a garôa que se estende sob o domingo nublado. 
Extenuada de seu sufoco, 
abre as asas e curva-se meia-lua 
debruçando sobre sua canga  pitanga, 
os dilemas de vidas passadas.


Neguinha faceira,  
tira os chinelos e com covinhas a saltar, 
já nos mostra o gingado apimentado ao caminhar. 
Pousada agora aos pés do mar, 
balança  saião, 
refrescando-se com ondas que lhe relembram o verão.


Sentada a beira mar, 
a mulata há de recitar 
uma prosa para Iemanjá, 
pedindo abrigo e um lar 
que faça a mágoa extirpar .


Então menina moça 
prepare-se para lutar, 
estenda a mão pro ar 
e lance sem pensar sua caravela de sonhos ao mar, 
para que suas preces continuem a navegar, 
na fé de seu Orixá.